Condessa do Rio Novo: Onde descansa a caridosa sinhazinha dos Três Rios?

É o ano de 1883. Uma manifestação no centro do Rio de Janeiro, promovida pelo Clube dos Abolicionistas, carrega um quadro com a imagem da Condessa do Rio Novo e deposita a obra em lugar de honra no Paço Imperial. Esse acontecimento simboliza a importância de Mariana Claudina Barroso de Carvalho, a Condessa do Rio Novo, que falecera um ano antes em Londres, na Inglaterra, e deixou em testamento a alforria de centenas de escravos e terras para que pudessem subsistir.

A história da Condessa do Rio Novo, importante figura da história do império brasileiro no século XIX, daria um lindo romance, mas também poderia ser contada numa novela policial. Descobertas recentes indicam que seus restos mortais nunca vieram para o Brasil, conforme seu desejo expresso. Outras questões chamam atenção na história da caridosa sinhazinha trirriense, personagem que nunca esteve tão atual.

Existem muitas histórias mal contadas e controvérsias sobre sua vida e sobre sua morte. Depois de conversar com pesquisadores, genealogistas e bons entendedores da história de Três Rios e da Condessa, a REVISTA VALE DO CAFÉ traz para os seus leitores e leitoras um pequeno apanhado dessa trama cercada de muitos mistérios.

INFLUÊNCIA NA CORTE E RECONHECIMENTO PÚBLICO

Do encontro dos rios Piabanha, Paraíbuna e Paraíba do Sul, surgiu a cidade de Três Rios, que já foi Entre Rios, distrito da vizinha Paraíba do Sul. Ali viveu Mariana Claudina Barroso Pereira após o casamento. Era filha de Antônio Barroso Pereira, o primeiro Barão de Entre Rios, e casou-se com José Antônio Barroso de Carvalho, o Visconde do Rio Novo, um primo em primeiro grau, como era costume na época.

Embora a ideia de deixar alforrias e terras para seus escravos não tenha sido originalmente sua – esse desejo constava no testamento do Visconde – Mariana foi uma mulher à frente de seu tempo, que não se intimidou mesmo quando se viu sozinha na condução dos negócios e dos bens da família após a morte do marido.

O próprio título nobiliárquico de Condessa lhe foi conferido depois disso. Tinha relações próximas com a família real e, segundo Pedro Gomes da Silva em seu Capítulos de História de Paraíba do Sul, teria sido agraciada com o título de Marquesa do Rio Novo, não fosse a sua morte.

MISTÉRIOS SOBRE A MORTE DA CONDESSA

Antes de sua morte, Mariana sofreu durante 5 anos com um tumor no ovário e decidiu ir para a Inglaterra realizar um procedimento cirúrgico com o Dr. Spencer Weels, médico da Rainha Vitória e grande especialista da época. Segundo a pesquisadora Cinara Jorge, autora de Pioneiros dos Três Rios – A Condessa do Rio Novo e sua Gente, importante compilação da história da formação da cidade de Três Rios e de seus primeiros povoadores, a Condessa tinha certo pressentimento sobre a própria morte. “Ela tinha medo de morrer. Ela presumia que poderia morrer. Tanto que ela deixou o testamento pronto”, afirma Cinara. O trabalho de Cinara, aliás, é impecável e merece destaque, seja pela riqueza de detalhes históricos e fontes que fornece, seja pela confirmação e apresentação das cópias dos documentos obtidos. A pesquisadora conseguiu, por exemplo, um documento com declaração do presidente da câmara dos vereadores de Paraíba do Sul na época da morte dela, Viriato de Medeiros, dando conta que nas vésperas do embarque havia conversado com a Condessa que lhe confessou estar deixando muita coisa em nome da Nossa Senhora da Piedade porque tinha muito medo de morrer.

A morte da Condessa em Londres, no dia 05 de junho de 1882, e o traslado de seu corpo para o Brasil são histórias mal contadas e cercadas de mistérios e interrogações. Segundo as fontes históricas, o corpo da Condessa só veio para o Brasil em 1885, a bordo do navio cargueiro Tamar, e chegou ao porto do Rio de Janeiro em 15 de agosto desse mesmo ano num caixão de zinco endereçado ao Dr. Randolpho Augusto de Oliveira Penna.

Após três dias, não havendo quem reclamasse a “carga”, o comandante do navio resolveu por bem entregá-la às autoridades alfandegárias cariocas. Como se o descaso fosse pequeno, o caixão ainda permaneceu por mais de dez dias nos armazéns da alfândega e só foi levado para Três Rios após grande exposição na imprensa local e nacional.  Mesmo assim, após a chegada do trem com os restos da Condessa na estação de Entre Rios, mais dez dias se passaram até que fosse transferido para a Capela Nossa Senhora da Piedade, próxima da sede da Fazenda do Cantagalo. Foi então sepultada ali, no jazigo construído pelo irmão em 1887.

Mas será mesmo? Por que o corpo da Condessa só veio ao Brasil 3 anos após a sua morte? Por que permaneceu por 3 dias dentro de um cargueiro que deixaria o Brasil novamente com o corpo a bordo? O corpo foi realmente embalsamado? Há documentos que comprovam isso?

ONDE DESCANSA A CARIDOSA SINHAZINHA DOS TRÊS RIOS?

Norteada por essas e outras intrigantes questões, Cinara Jorge teve acesso a documentos que possuem fortes indícios de que o corpo não está sepultado em Três Rios, como se acreditou durante 134 anos.

A pesquisadora pediu a um amigo genealogista, residente em Londres, que conseguisse encontrar o cemitério onde a Condessa foi enterrada. Pela lógica, haveria neste cemitério o registro do sepultamento e da exumação, mas, para surpresa de todos, o cemitério informou que os restos mortais continuam lá e que jamais foram exumados para vir para o Brasil. Segundo a superintendente do cemitério, Anna Humphrey, a falecida mencionada pelo genealogista encontra-se nas catacumbas inferiores do cemitério e não há nenhum registro de exumação.

Tomando conhecimento desse assunto, Valdirene Ambiel, arqueóloga responsável pela exumação dos restos mortais de D.Pedro I e suas duas esposas em São Paulo, apaixonou-se pela história e aceitou fazer a exumação da Condessa voluntariamente. A gestão passada do município de Três Rios até se entusiasmou com a
possibilidade de tirar a história a limpo, mas esbarrou na falta de autonomia e amparo legal para autorizar o procedimento.

A Casa de Caridade de Paraíba do Sul, administradora da Fazenda do Cantagalo, solicitou autorização para o procedimento de exumação aos sobrinhos pentanetos do Visconde de Entre Rios, ou seja, descendentes indiretos de quinta geração do irmão da Condessa do Rio Novo, que não deixou filhos. A família não autorizou, alegando que
mais de um século se passou e que não via necessidade de tal procedimento.

Cinara lembra que as exumações não são feitas somente para descobrir a identidade, mas também para preservar o corpo. Em se tratando de personagem importante para a história, sepultado em bem tombado pelo patrimônio histórico, pode-se entender as exumações também como obrigação de cuidado, já que com as atuais técnicas e exames muitos mistérios podem ser esclarecidos, tais como causa da morte, doenças preexistentes, limpeza da mortalha, etc. “Foi graças à Condessa do Rio Novo e seu magnânimo testamento que surgiu a cidade de Três Rios e é de se esperar que, no mínimo, a verdade seja esclarecida, até mesmo como respeito à memória da Veneranda Senhora. Eu estou torcendo para que os restos mortais da Condessa estejam aqui, não o contrário, porque aquele túmulo de mármore sempre foi objeto de respeito e homenagens, o nosso coral municipal foi lá e cantou em torno do túmulo. Pessoas fazem promessas, rezam, colocam rosas. Eu quero muito que seja ela que esteja lá. Mas é preciso que não haja dúvida. Devemos isso à Condessa, por respeito à memória e à vontade dela antes de morrer”, afirmou Cinara.

TESTAMENTO NÃO CUMPRIDO

Assim como o testamento de Eufrásia Teixeira Leite, famosa personagem do município de Vassouras que deixou bens para a comunidade local em testamento, a vontade da Condessa do Rio Novo não foi cumprida em muitos aspectos.

O próprio Dr. Randolpho Penna e sua esposa Dona Carolina, sobrinha da Condessa, lideraram a contestação do testamento da Condessa na justiça em 1885. O casal impetrou uma ação contra o provedor da Casa de Caridade, o Barão Ribeiro de Sá, requerendo para si as casas, prédios e terras situadas na povoação de Entre Rios, pertencentes à Estrada União Indústria, com o argumento de serem “bens muito diferentes e diversos” da fazenda agrícola doada em testamento pela Condessa. Não fizeram isso sozinhos, mas com apoio de outros familiares. O único que não participou do conluio foi o irmão da Condessa, o Visconde de Entre Rios. Menos de um ano depois, os autores perderam a ação e foram condenados a pagar as despesas processuais.

Os itens cumpridos foram só os que satisfaziam interesses pessoais e financeiros dos descendentes próximos.

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