Eufrásia Teixeira Leite: uma mulher à frente do seu tempo

Para entender essa história é preciso sacudir o pó e revirar muitas caixas de documentos porque cada informação é uma preciosa peça para montar o quebra cabeça da vida dessa mulher que escolheu seu destino, quando cabia às mulheres apenas ter um papel secundário em suas próprias vidas.

Por Mariana Ribeiro

Eufrásia é a terceira filha do casamento entre Ana Esméria da família Corrêa e Castro e Joaquim José da família Teixeira Leite, sendo que o único filho homem do casal morreu ainda bebê.

O Comendador Joaquim José Teixeira Leite se formou bacharel em Direito em São Paulo, foi político e negociante influente, comissário de café e presidente da Câmara Municipal de Vassouras em duas ocasiões: 1844-48 e 1861-64. Foi também deputado pela Província do Rio de Janeiro e grande entusiasta da construção da estrada de ferro. Sua principal atividade era a Casa Comissária.  Os comissários recebiam dos fazendeiros o café para ser vendido e exportado. O dinheiro arrecadado com a venda era mantido em crédito em uma conta dos fazendeiros, desta eram debitados o valor dos mantimentos e outros pedidos que garantissem novas plantações. Eram as casas comissárias que financiavam a lavoura e a garantia era a safra futura.

O poder e a fortuna estavam na mão dos detentores de recursos para a produção que predominava no país, seja na propriedade física (controle do processo produtivo como fazendas e mão de obra), como a disponibilidade de recursos financeiros (empréstimos e intermédio nas negociações de preços para exportação). Duas fontes e formas de poder distintas que se complementavam.

A família Teixeira Leite tinha uma ampla abrangência de atuação na área econômica, tendo atuado como comissários, comerciantes e detinham altas participações acionárias em bancos e empresas, em alguns casos sendo eleitos e atuando na gestão como presidentes e diretores em assembleias das mesmas. A denominação de irmãos “Teixeira Leite” foi encontrada de forma recorrente durante os documentos pesquisados da época, o que mostra suas associações e alianças na execução de seus projetos.

A família do ramo materno, os Corrêa e Castro, foram proprietários de fazendas na região com grandes produções de café. Laureano, Barão de Campo Belo, foi proprietário da fazenda do Secretário. Além de vereador da Câmara em 1833, inaugurando os trabalhos da municipalidade em Vassouras. Também ocupou o cargo de Comandante da Guarda Nacional, jornais da época relatam que havia 800 homens sob seu comando.

O casamento era uma forma de fazer e firmar alianças entre as famílias como no caso dos Corrêa e Castro produtores de café e os Teixeira Leite que detinham crédito e assim financiavam a produção rural.

Vassouras atinge seu auge de produção em 1850, o que possibilitou para as famílias viver esplendor em uma vila nascente e próspera. A cidade já possuía calçamento, teatro, médico, Igreja matriz tudo financiado pelo Ouro verde como era chamado o café.

No Museu Casa da Hera pode ser encontrado um aquecedor com chaminé móvel, piano Herz de cauda longa, um aparelho de estereoscópico onde as lentes faziam a imagem se tornar tridimensional, esse efeito encantava a família e os convidados nos momentos de intimidade e convivência.

Eufrásia nasce em meio a essa prosperidade na vila e é batizada na Igreja matriz de Nossa Senhora Imaculada Conceição. Francisca e Eufrásia estudaram no famoso colégio de moças de Madame Grivet. As irmãs perdem a mãe e o pai em um período curto, partem então no ano 1873 rumo a Europa decididas a fixar residência em Paris. A cidade não era novidade para elas pois já haviam vivido ali durante a adolescência. Além disso, um dos irmãos do Dr. Joaquim, o Comendador Custódio Teixeira Leite, era diretor da Companhia Brasileira de Tramways em Paris e vivia na cidade há alguns anos.

Alguns anos depois Francisca e Eufrásia adquirem um imóvel na Rua Bassano no número 40, próximo a Champs-Élysées. O terreno tinha mais de 695 metros quadrados construídos com quatro edifícios, sendo o principal com fachada para rua, um para festas e recepções, um jardim de inverno e o edifício para moradia dos empregados. Os jornais de Paris noticiam que as Mademoiselles. Teixeira Leite recebiam na sua casa as quintas-feiras. O quadro que retrata Eufrásia e está no acervo do Museu Casa da Hera foi pintado nessa fase pelo pintor Carolus Duran.

O luxo que Eufrásia vivia em Paris é constatado ao se admirar um vasto acervo de indumentárias, inclusive vestidos confeccionados por Charles Frederick Worth que atendia também a Imperatriz Eugenia e as mulheres das famílias Rothschild e Vanderbilt, no acervo do Museu Casa da Hera.

Derradeiros anos…

Eufrásia veio ao Brasil com sua irmã após longa estadia na França, no ano de 1885 o jornal O Paiz noticia o encontro de Mademoiselles Teixeira Leite, o Imperador, Conde d´Eu e alguns convidados, como ministros britânicos e o Barão e Baronesa de Estrela que embarcaram no Marchese, de propriedade do conde Dudley para seguir uma viagem a recreio e Paquetá.

Quando não estava no Brasil fazia questão de receber da Casa da Hera vidros de água de rosas do jardim, doces e chá de jasmim. No jardim da casa de Paris há o registro de jabuticabeiras no jardim de inverno.

Após o falecimento de Francisca em 1899, a vida social de Eufrásia se torna mais ativa, passa, por exemplo, a ser doadora da associação de amigos do Museu do Louvre o que permitia que ela visitasse as exposições antes de serem abertas ao público.

No ano 1926 ela volta ao Brasil e por carta avisa que está a caminho de Vassouras pedindo que se certifiquem que o piano da Casa da Hera está afinado.

No início de 1930, com intenção de voltar à Europa e já com a passagem de navio comprada, Eufrásia pede em carta a um secretário em Paris que avise seu médico sobre a uremia e o questione se existe a possibilidade de viajar. A resposta foi para que aguardasse uma melhora com o tratamento, pois caso viesse a sofrer uma crise no navio, não teria como ser socorrida, assim desistiu da viagem. Com o agravamento de seu quadro de saúde falece no Rio de Janeiro em 13 de setembro de 1930, em um apartamento na Ladeira da Glória. Seu corpo foi levado para ser enterrado em Vassouras de trem no Mausoléu da Família Teixeira Leite.

O processo de inventário foi aberto, o Dr. Raul Fernandes, foi designado o inventariante dos bens no exterior. Ele foi à Europa em 1 de maio de 1931, e explicou ao juiz que atrasou sua viagem por dois motivos: a crise econômica e a possibilidade de uma ação para anular o testamento movido pelos parentes colaterais. O inventariante dos bens no Brasil foi o Dr. Antônio Fernandes Junior, irmão do Dr. Raul.

A mulher muito à frente do seu tempo foi julgada e muitas vezes mal interpretada o que faz nascer histórias como a suposta determinação de que parte do seu dinheiro fosse destinado a cuidar do burrinho Pimpão quando a única menção em seu inventário é a de posse de um burrinho cor pinhão que foi vendido assim como todos os seus bens com exceção da casa em que nasceu e viveu com a família e onde hoje funciona o Museu Casa da Hera administrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

Expert nas finanças

No primeiro levantamento da posição acionária de 13 de janeiro de 1931 em um dos bancos que eram seu intermediário, o Bank of London and South America do dia 13 de janeiro de 1931 era extensa (cinco páginas), e nela constavam 262 posições acionárias de empresas de atividades muito diversas, como mineração, segmento têxtil construção de ferrovias. Além disso, Eufrásia possuía também ações, debêntures e apólices dos mais diversos governos em dividas ativas. Através de seus investimentos em Bolsa de Valores, lidou com um cenário internacional complexo que compreendeu a primeira guerra mundial e o período entre guerras, que causaram um movimento de protecionismo nas economias de maneira geral. Os investimentos financeiros dela compreendiam diversas moedas, países e formas de ativos.

Filantropa

Quando Eufrásia faleceu, seu testamento determinava que seus bens fossem vendidos e doados. Uma grande soma em dinheiro é entregue para a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras e uma parte deveria ser investida na construção do Instituto Profissional Masculino Dr. Joaquim José Teixeira Leite e um instituto feminino de educação (foi entregue uma ordem religiosa), sendo que uma das causas obrigatórias é que se mantivesse bolsa de estudos para crianças de famílias que não poderiam arcar com esses gastos. Além disso, com o dinheiro e seguindo a sua vontade foi construído e entregue em 1941, o Hospital Eufrásia Teixeira Leite, com 200 leitos, laboratório clinico, setor de raios X, fisioterapia e lavanderia, cujo diretor era o Dr. Luiz Pinto comandando as cinco seções: clínica médica, pediatria, oftalmologia, otorrinolaringologia e cirurgia.

 


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