Fazenda Alliança: Sustentabilidade no passado, no presente e para o futuro

 

A Revista Vale do Café traz um grande exemplo de cuidado e uso sustentável do patrimônio cultural e natural do Vale do Café: a centenária Fazenda Alliança, em Barra do Piraí. É possível estabelecer um paralelo entre o passado histórico da Alliança, seu presente e o futuro por meio de uma só palavra: sustentabilidade.
Localizada entre os municípios de Barra do Piraí e Valença, a Alliança é um registro histórico material muito valioso para o estudo da economia e da produção de café no Brasil oitocentista. O método e as técnicas utilizadas ali para o plantio do café e de outros itens no século XIX foram pioneiras no país e denotam uma curiosa preocupação de um dos seus primeiros proprietários, o terceiro Barão do Rio Bonito, com a sustentabilidade e com as boas práticas agrícolas já naqueles tempos.

José Pereira de Faro, o terceiro Barão do Rio Bonito foi um homem visionário. Com tantos bem feitos políticos e grande contribuição ao progresso da cidade de Barra do Piraí, Faro assumiu os negócios da família aos 30 anos e imprimiu sua marca à condução deles. No caso específico da Fazenda Alliança, adquirida de um tio, transformou-a numa virtuosa unidade de produção de café – produzia os melhores cafés do mundo – e outros itens de primeira necessidade, com requintes e detalhes de fazer inveja aos grandes empreendedores da história.

Inspirada nesse homem, a atual proprietária da fazenda, a arquiteta Maria Josefina Durini, conduz a Alliança com a mesma perspicácia e os mesmos preceitos nobres de Faro. A Fazenda Alliança continua sendo uma unidade produtiva – não somente de café, mas de diversos outros – gera sua própria energia, produz seus próprios alimentos e ainda explora o filão do turismo histórico e cultural. Novamente em uma palavra: sustentabilidade.
Com acesso pelo quilômetro 47 da RJ 145 (que liga Barra do Piraí à Valença), a propriedade é rodeada pelas matas da Reserva da Serra da Concórdia e tem 300 hectares, dos quais 43% são de Mata Atlântica preservada.

PASSADO

Construída pelo primeiro Barão do Rio Bonito, avô de José Pereira de Faro, a Fazenda Alliança originou-se da Boa Esperança, mas somente depois de adquirida pelo terceiro Barão do Rio Bonito é que ganhou contornos marcantes, seja na produção, no método, na arquitetura e em tudo o mais que há na fazenda.
José Pereira de Faro, o terceiro Barão do Rio Bonito nasceu nas terras da fazenda Floresta, onde hoje se localiza o distrito de Ipiabas (Barra do Piraí). Viveu entre 1832 e 1899. Somente aos 30 anos de idade assumiu a administração dos negócios da família. Foi um homem de grandes feitos e teve um papel fundamental na política e economia do Vale do Café, especificamente em Barra do Piraí, onde colaborou efetivamente para emancipação política e administrativa do lugar – atualmente, há um busto seu na Praça Nilo Peçanha. Tinha ótimo trânsito na Corte, inclusive com o Imperador Dom Pedro II. Era um homem culto, com ideias liberais, que estudou na França e passou a atuar na atividade rural a pedido da mãe.

Adquirida especificamente para produzir café, a fazenda tem características peculiares que demonstram um modo de produção preocupado com a sustentabilidade, com a redução de custos, práticas agrícolas menos agressivas e auto suficiência. Faro, por exemplo, não utilizava fogo nas matas e nos pastos. Quando adquirida por Faro, ela inclusive trocou de nome, passando a se chamar Alliança.
O terceiro Barão do Rio Bonito foi segundo Leoni Iório, um dos mais adiantados e caprichosos agricultores do Rio de Janeiro. O Barão possuía também as Fazendas de Sant´Anna, Monte Alegre e São Pedro. Era conhecido como um dos reis do Café no século XIX. A Alliança era tão somente uma fazenda de produção, minuciosamente transformada pelo barão numa eficiente unidade produtiva de café, com um produção anual média de 700.000 (setecentos mil) pés de café.
Depois de comprar a fazenda, o barão mesclou dois estilos de arquitetura – o colonial e o neoclássico – e iniciou obras de modernização do complexo cafeeiro da fazenda. Estas incluíram,
segundo o Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense, a construção do imponente pórtico neoclássico, marcando a entrada principal da casa-sede e que recebeu no alto do seu frontão triangular a data do término das obras, 1863.
O terceiro Barão do Rio Bonito buscava sempre produzir o melhor café para exportação, o que se confirmou na Exposição Nacional realizada em 1861, quando recebeu Medalha de Ouro e Menção Honrosa. Na Exposição Internacional de Londres, realizada em 1862, foi agraciado com a Medalha de Primeira Classe, além de receber diversas menções honrosas. Por esse feito, foi agraciado com a Ordem da Rosa pelo Imperador D. Pedro II. Em outras exposições, como a de Hamburgo, Altona e Córdoba, também obteve os primeiros lugares na confrontação de seus produtos com os de outros países, como publicado no artigo A Vida Fluminense, da Folha Illustrada de 1871.
Durante visita ao Vale do Café, Dom Pedro II anota em seu diário: “O sistema do Faro é preparar tudo do que precisam as fazendas, até o sabão. O pão de trigo é bom; mas, o de cará, mais saboroso, Despolpa e lava o café cuidando de trazê-lo por meio de um plano inclinado sobre
que corre um carro. Tem ensaiado diversos sistemas de aprontar o chão dos terreiros; mas ainda não preferiu nenhum.”

 

 

PRESENTE E FUTURO

Um ponto comum liga diretamente a proprietária atual da fazenda, Maria Josefina Durini, a José Pereira de Faro, o terceiro Barão do Rio Bonito: a preocupação com a sustentabilidade.
Adquirida em 2007 por Josefina, a fazenda Alliança continua sendo um grande exemplo de produção limpa e sustentável. O café não é mais o principal item produzido ali, mas também faz parte da complexa e abrangente cadeia produtiva da Alliança. Além de explorar o filão do turismo cultural na região, a fazenda tem um sistema de produção sustentável, com destaque para a produção orgânica de leite de búfala e cultivo orgânico de diversos gêneros alimentícios e de primeira necessidade. “Nosso carro chefe é o leite de búfala o qual vendemos a Laticinios próximos da fazenda. Somos os únicos produtores de leite orgânico de bufala no Estado do Rio de Janeiro e um dos poucos no Brasil”, afirma Josefina.
A Alliança é a “menina dos olhos” da proprietária, que cultiva na fazenda alimentos de qualidade com o mínimo impacto possível ao meio ambiente. Os conceitos da agroecologia estão na raiz de tudo o que se faz ou produz ali. A produção estritamente orgânica, é certificada há 7 anos pela Ecocert, conceituada empresa franco-alemã, que tem grande destaque no que se refere a produção de gêneros orgânicos.
O segundo grande feito foi seguir no intuito de reescrever a história da produção cafeeira da região. A Alliança participa do projeto do Sebrae de renovação das plantações de café, resgatando as áreas outrora degradadas para produção de um café gourmet, sombreado, que revela em seus grãos os sabores e aromas das árvores ao redor. Josefina, porém, não quis abrir mão do selo orgânico viajou até o nordeste brasileiro e a Colômbia para obter informação suficiente para alcançar o desenvolvimento desses novos arbustos. As primeiras mudas começam a despontar, mantidas através da técnica de gotejamento e envoltas em tiras de plástico, que as protegem das ervas daninhas. A previsão é de que em 2 anos se possa vislumbrar as primeiras sementes nos pés.

SUSTENTABILIDADE

 

Toda a estrutura da Alliança também segue a preocupação ecológica da proprietária: as áreas de trabalho foram construídas com materiais ecológicos, feitos a partir de tetrapack e telhas sustentáveis. A restauração da sede seguiu projeto priorizando o uso de materiais já existentes, preservando traços originais da arquitetura nas áreas comuns, porém os cômodos e banheiros com roupagem totalmente nova. Estes deram asas à criatividade da proprietária, cada um de uma cor, com temas diferentes e peças únicas, algumas verdadeiras obras de arte. O banheiro de um dos quartos, inspirado em estética oriental, revela a atenção e minucia dedicadas a esses ambientes. Grande parte da casa também utilizou materiais de demolição na reforma, permanecendo dos antigos proprietários a grande mesa da sala, feita em madeira maciça.
Além das construções, o dia a dia da fazenda mantém o foco na economia e preservação de recursos: a luz vem de energia solar fotovoltaica, o lixo é separado, sendo a parte orgânica utilizada como adubo, e a prioridade é sempre por utilização de materiais da própria fazenda quando feitos reparos e construções de estruturas externas. “A fazenda tem muita água, muitas minas protegidas com mata ciliar e cercadas para que fiquem mais protegidas. Temos muito cuidado também com o uso do solo. Dedicamos muito tempo melhorando a fertilidade do solo, remineralizamos as terras com calcário, adubamos com esterco e vermicomposto e plantamos diversas leguminosas”, explica Josefina.
A mão de obra da fazenda é capacitada permanentemente dentro e fora da fazenda. Os funcionários participam de diversos cursos de aprimoramento. Josefina conta que formar uma boa equipe foi um dos grandes desafios. “Hoje, depois de 10 anos, conseguimos ser um time no qual todos acreditamos e trabalhamos em prol do ´projeto Alliança´. Nossos colaboradores lidam com a horta, com a granja, as búfalas, então ninguém melhor do que eles pra falar disso. Por isso são eles que fazem a visita guiada e inclusive a visita histórica.

Importante mencionar ainda que as construções da ordenha das bufalas e aprisco dos carneiros foram construídas com materiais recicláveis: madeira, plástico, pet e telhas de tetrapack. Todo o lixo é processado ali, não há lixão na fazenda. Josefina reafirma o importante papel da Alliança inclusive para inspirar outros
empreendimentos. Segundo ela, a região precisa de modelos sustentáveis e a Alliança tem muito orgulho de ser um modelo que pode ser replicado.

TURISMO PLURAL

A Fazenda Alliança também dialoga com os principais segmentos turísticos do Vale do Café e recebe turistas e visitantes para uma rica experiência, permeada de múltiplos sentidos. Quem visita a Alliança pode observar as búfalas, a vida silvestre de uma natureza preservada, degustar produtos orgânicos da própria fazenda, conhecer o interior de uma fazenda histórica reformada, sentir os cheiros vindos da horta e do pomar histórico, que exala odor de cravo da índia das árvores centenárias, e, ainda, observar os antigos maquinários na tulha, dos troncos das árvores, as cantarias e as madeiras centenárias.
A Alliança ainda faz parte do projeto do Sebrae de “Reintrodução do Café Gourmet no Vale do Café”. “Plantamos mais de 6000 mudas (em sistema orgânico) e recuperaremos o café sombreado existente”, destacou a proprietária. Sede histórica, circuito de café e produção agropecuária agroecológica são instrumentos de educação do ponto de vista histórico, social, econômico e ambiental. A Tulha também pode ser alugada para festas e eventos que podem contar no buffet com os alimentos orgânicos da própria fazenda.

GASTRONOMIA

 

Outro ponto alta da Alliança é a gastronomia. A fazenda desenvolve uma culinária única e diferenciada com diversos alimentos produzidos ali mesmo. Lá, o visitante pode saborear a alimentação orgânica – com origem demarcada de uma grande variedade de legumes, verduras e frutos que não se encontram comumente nos mercados.
A curadora gastronômica da Alliança, a chef Leticia Vilardo que também é sommelier, historiadora, turismóloga e oleóloga (especialistas em azeite), explica que a experiência de chef na fazenda é única. Letícia estudou em país como Canadá, França, Itália e Espanha e trabalhou no Le Meridien e no Copacabana Palace, mas diz que nada se compara à experiência vivenciada na fazenda Alliança. “Estou desenvolvendo um trabalho que chamo de gastronomia de origem, o que os franceses chamam de “cuisine de terroir” que é baseada em insumos produzidos no local onde se cozinha e frescos, portanto mais nutritivos e saborosos. A Fazenda Alliança é um prato cheio para qualquer chef de cozinha, uma dádiva pra mim”, afirma Letícia.

Serviço:
Venda de produtos orgânicos
Visitação
Espaço para festa e eventos

Localização: RJ 145 ( Barra do Piraí/Valença), Km 47 – 22211-100 Barra do Piraí RJ

Contatos:
E-mail: contato@fazendaallianca.com.br
André: WhatsApp 024-99277 6664
Tel. 021-7893 4575
Adiel: Tel/Whattsapp 021-96454 8868/021-99321 1646
Tel. 021-7892 9499
Escritório Rio de Janeiro: 021-2266 0567
Fazenda: 024-99327 0248

Referências
– Entrevista com proprietária e trabalhadores da fazenda
– Livro “Terceiro Barão do Rio Bonito – Subsídios para a história de Barra do Piraí do autor Leoni
Iório.
– Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense (INEPAC)

 

Fotografias: Lívia Padua

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