FAZENDA DAS PALMAS: Um legado para as futuras gerações

Construída ainda no século XVIII, a Fazenda das Palmas foi uma das pioneiras no cultivo do café no Vale do Paraíba. Segundo o Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense, teria sido fundada por Bento Luiz de Oliveira Braga, dono de grandes propriedades produtoras de cana-de-açúcar na província do Rio de Janeiro que passou a investir no plantio do café no Vale do Paraíba. Mas somente mais tarde, depois de adquirida – ao que tudo indica – por Antônio Félix de Oliveira Braga, quando chegou a possuir 650 alqueires geométricos de terras, é que ganhou destaque como importante fazenda produtora de café. A partir desse período, Palmas se destacou também como produtora de aguardente.

A propriedade possuía uma localização privilegiada e estratégica na região de Sacra Família pois situava-se bem perto do entroncamento das estradas da Polícia (1817) e do Caminho Novo de Sacra Família do Tinguá (1750). Isso vale ainda hoje, pois está a apenas 2 Km da RJ 121, que liga Vassouras à Miguel Pereira e Paty do Alferes. Bem próxima também de Mendes, a Fazenda fica em Engenheiro Paulo de Frontin.
No ano de 1878, já tendo mudado de proprietário, a fazenda estava nas mãos de Henrique Gaspar Lahmayer, um genro do dr. Caetano Furquim de Almeida. Em 1886 foi instalada na Fazenda das Palmas a Companhia Agrícola e Colonizadora de Vassouras, cujo maior acionista era o próprio Henrique Lahmayer. Segundo a historiadora e pesquisadora Roselene Martins, a companhia pretendia explorar não só as terras de Palmas como de outras propriedades e tinha objetivos ousados para a época como a substituição da mão de obra escrava pelo trabalho livre e a substituição da agricultura extensiva pela intensiva. Mas uma fatalidade pôs fim à companhia e todo um sonho de progresso: Henrique sofreu um “mal súbito” no ano seguinte à criação da empresa, que foi dissolvida pelos herdeiros, assim como vendida a Fazenda de Palmas para Joaquim Gomes Leite de Carvalho, o segundo barão do Amparo. O barão faleceu em 30 de abril de 1921, ainda proprietário da fazenda.
Hoje, a Fazendas das Palmas pertence à família do ex-banqueiro e empresário Antônio Carlos de Almeida Braga, mais conhecido como Braguinha. Grande incentivador e mecenas do esporte brasileiro, ele impulsionou e colaborou com a carreira de grandes nomes do esporte mundial, como Ayrton Senna e Gustavo Kuerten, dentre muitos outros. A senhora Luiza Almeida Braga, junto com a filha e um genro, conduz a fazenda de forma impecável e sempre pensando no futuro.
Luiza conseguiu reinserir a fazenda nos roteiros turístico-culturais do Vale do Café e realiza ali um trabalho primoroso de recuperação da mata atlântica e de seu uso sustentável. A fazenda voltou a produzir aguardente e a plantar café, mas respeitando a mata. Em Palmas, hoje, café e floresta convivem em perfeita harmonia. Mais do que em harmonia: um cuida do outro.

A construção passou por diversas intervenções e modificações ao longo dos anos, mas algumas características arquitetônicas foram preservadas. Ainda de acordo com o Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense, “trata-se de um casarão de fazenda tradicional construído sobre porão alto com dois óculos ovais para ventilação. O corpo da edificação conta, na fachada principal, com 11 vãos em arco pleno, ditando o alpendre uma divisão em três tramos de composição”. No inventário, disponível gratuitamente na internet há uma descrição arquitetônica minuciosa do imóvel.
No interior da casa, o destaque está na capela – único cômodo originalmente preservado – com retábulo de madeira e altar-mesa ornamentados em dourado, mantendo imaginária de porte variado. O forro de madeira no formato de gamela apresenta pintura de cunho religioso inscrita em molduras com formas geométricas.

Turismo, educação ambiental e responsabilidade social

Palmas explora bem o filão do turismo cultural e o grande fluxo de turistas que vêm para região consumir esse tipo de produto. Participa do Festival Vale do Café e recebe grupos em visitas previamente agendadas em determinados períodos do ano. Durante a visita, o turista tem a oportunidade de conhecer parte das áreas internas do casarão, de conhecer o alambique e o belíssimo trabalho de agrofloresta e recuperação da mata. Luiza explica que a relação com o turismo surgiu da vontade de popularizar o modelo de agricultura sintrópica adotado em Palmas e da necessidade de inserir a fazenda no perfil do Vale do Café.
Mas a coisa ali vai muito além disso. Palmas realiza diversas ações e atividades de interação com a comunidade local, inserindo inclusive a comunidade em muitas das atividades realizadas na fazenda. Tem até uma padaria própria que serve à comunidade do entorno da fazenda. Algumas das atividades por exemplo, foram pensadas exclusivamente para os alunos de uma escola vizinha à fazenda. É a Escola Municipal Barão do Amparo que pratica nas dependências de Palmas todo um programa educativo por meio do esporte, da história e do meio ambiente onde os alunos têm contato direto com a natureza, com os animais e com o cotidiano da fazenda. Durante todo o ano as crianças praticam esportes como golfe, hipismo, badminton e tênis e no final do ano há uma culminância, uma atividade comemorativa com a participação dos pais e jogos entre os alunos. “A interação com a comunidade de Palmas e com a escola é uma das nossas maiores preocupações. O contato com os alunos e com os professores criou um canal de comunicação privilegiado para tentarmos entender a dinâmica das relações entre o poder público e a população, por exemplo. Por outro lado estamos na zona rural onde a agricultura é meio de vida. Nesse sentido, a fazenda pode colaborar ajudando a tornar mais visíveis e conhecidas determinadas técnicas agrícolas, estimulando comportamentos mais ecológicos e sustentáveis e colaborando para mudar a mentalidade dominante”, contou Luiza à REVISTA VALE DO CAFÉ.

Um grande exemplo para o Vale do Café e para o mundo

Sergio Olaya

Embora esteja localizada em uma área privilegiada da Mata Atlântica, Palmas sofreu as mesmas consequências de toda a região por conta da monocultura do café e de outras monoculturas. Quando a família Almeida Braga chegou na Fazenda em 2012 havia uma extensa área de eucaliptos, cerca de 15 hectares. Já tinham compromisso com a preservação das matas existentes e a intenção de expandir a zona de floresta. Foi necessário todo um trabalho, todo um planejamento para recuperar as áreas degradadas e reestabelecer o equilíbrio do ecossistema local. E Palmas tem avançado bastante nesse sentido.
Para colaborar nessa missão, convidou Sergio Olaya, especialista em agrofloresta e agricultura sintrópica, um dos discípulos do renomado Ernest Goetsch. Sérgio foi convidado para recuperar áreas degradadas com sistemas agroflorestais, introduzindo inclusive o plantio do café em harmonia com a floresta. “O desafio é encontrar um equilíbrio numa agricultura que não degrada, que não mineraliza e que recompõe a floresta e aumenta os recursos em água, em biodiversidade e em vida de uma maneira geral e, ao mesmo tempo, seja viável economicamente”, afirma Sérgio.
A Fazenda das Palmas tem dado um grande exemplo ao Vale do Café, mas seus proprietários têm consciência de que não adianta fazer só ali. É uma questão que precisa ser levada muito a sério por toda a comunidade e por todo o entorno da fazenda. Por isso, além do trabalho específico de recuperação da mata, periodicamente Palmas abre as portas para interessados em cursos de Sintropia e Agrofloresta, ministrados pelo próprio Sergio Olaya. “A gente entende que a educação não só ambiental, mas a educação para todos têm de começar nas escolas de base, nas universidades e a Fazenda das Palmas pretende ser um centro catalisador dessa discussão pra gente e todo mundo junto pensar qual a nossa alternativa diante desse modelo vigente que não está funcionando”, conta o esperançoso agricultor, como Sergio Olaya prefere ser chamado e reconhecido.
E o trabalho em Palmas já tem dado ótimos resultados – é visível a melhoria do solo, do micro-clima e do crescimento da floresta em relação ao dia em que chegaram ali. “Não é fácil, é trabalhoso, mas é possível, estamos iniciando o trabalho num área menor em áreas pequenas e buscando alternativas para áreas maiores, mecanizadas para que o grande agricultor entenda que ele pode pelo menos começar a fazer corredores agroflorestais e faixas com árvores e que esses corredores também se tornarão produtivos em médio e longo prazo”, conclui Sérgio.

Agricultura Sintrópica

A Agricultura Sintrópica trabalha com a recuperação pelo uso. Ou seja, o estabelecimento de áreas altamente produtivas e independentes de insumos externos tem como consequência a oferta de serviços ecossistêmicos, com especial destaque para a formação de solo, a regulação do micro-clima e o favorecimento do ciclo da água. O conceito foi sistematizado por Ernst Götsch, agricultor e pesquisador suíço, criador do conjunto de princípios e técnicas que compõem a Agricultura Sintrópica. Com mais de 40 anos de experiências e realizações, Götsch desenvolveu uma agricultura que concilia produção agrícola e recuperação de áreas degradadas.

Localização: Estrada das Palmas, 9444 – Palmas (Entre Sacra Familia/Vassouras)
Como chegar: Há dois acessos principais: Pela RJ-121,que liga Vassouras a Miguel Pereira; e pela Estrada das Palmas, que liga a sede do município Engenheiro Paulo de Frontin à localidade de Barão do Amparo.
Tel.: (24) 2468-1489
Email: fazenda.palmas@gmail.com
Fontes:
– Entrevista com proprietários e colaboradores da Fazenda das Palmas.
– Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense (Inepac / Instituto Cidade Viva) –
AII – F03 – PF.
– Site oficial da Agenda Gotsch (http://agendagotsch.com/)

Fotos: Igor Alecsander

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