Quem foi o Dr. Miguel Pereira

Miguel da Silva Pereira, filho do coronel Virgílio da Silva Pereira e de Porcina Magalhães Pereira, nasceu no dia 2 de julho de 1871 na Fazenda do Campinho, propriedade encravada na Serra da Bocaina, em terras paulistas de São José do Barreiro. Até os 12 anos, o garoto viveu na fazenda, recebendo uma alfabetização básica ministrada pela própria mãe. Esgotados os recursos caseiros de ensino, o pai levou-o para o Rio de Janeiro, inscrevendo-o nos exames preparatórios do internato do Colégio D. Pedro II. Embora confiante no talento do filho, o coronel mostrava-se apreensivo com a concorrência de outros estudantes e com o alto nível das provas.

Entretanto, todas as preocupações que o afligiam cederam lugar à euforia, porque além de conseguir brilhantemente uma vaga naquele bastião de ensino, o menino logo manifestou sua invulgar inteligência, apresentando um aproveitamento ímpar em todos os testes propostos pelos mestres ao longo de exames estafantes. Em poucos meses, valendo-se de um inato dom de comunicação, Miguel Pereira pôs-se a repassar aos colegas mais embaraçados tudo aquilo que assimilava com extrema facilidade, revelando bem cedo a qualidade de transmitir conhecimentos que faria dele, anos depois, um conceituado professor universitário. Sereno e responsável, tinha nos estudos o objetivo maior de todas as suas ambições existenciais. Não se afastava, porém, do convívio com os colegas, conciliando suas responsabilidades com a solidariedade ao próximo, demonstrando assim uma afetuosidade de caráter que o levava a ser admirado pelos professores e respeitado pelos colegas.
Por outro lado, na alma daquele adolescente compenetrado ardia a chama de seu fascínio pela paz dos campos e pelo verde das montanhas do interior. Por conseguinte, ao se encerrar o ano letivo, ele mergulhava feliz nas férias tão esperadas, partindo para sua fazenda querida, onde liberava sua identidade de adolescente rural e despreocupado. Mas o tempo implacável convocava-o logo e o levava de volta para as refregas da dura vida acadêmica. Assim, com apenas 20 anos Miguel Pereira ingressava na histórica Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, após ter obtido distinção em todas as exaustivas provas acadêmicas.

Nos anos subsequentes, ele deu a todos os seus mestres vivas provas de sua talentosa capacidade de aprendizado, granjeando fama e respeito entre as solenes paredes daquela renomada casa de ensino. Cinco anos depois – ou seja, em 1896 –, o precoce acadêmico apresentava uma tese revolucionária à Congregação da Faculdade de Medicina, condensada numa obra de raro fôlego e excelência intitulada “HEMATOLOGIA TROPICAL”, com a qual deixou eternizado seu nome nos anais da medicina brasileira. Tal tese jogava por terra a preconceituosa ideia de que o sangue do homem nascido nos trópicos seria inferior em qualidade ao sangue do homem europeu, suposição que tentava explicar uma anemia peculiar dos nossos trópicos.

O minucioso e inquestionável trabalho de Miguel Pereira já revelava o metódico espírito de pesquisador que ele aperfeiçoou ainda mais nos anos seguintes e, principalmente, suas preocupações em relação às doenças que tanto molestavam as populações mais humildes. O assunto provocou uma considerável polêmica entre os afamados médicos brasileiros Dr. Pedro de Almeida Magalhães (que defendia o trabalho) e Dr. Álvaro Paulino Soares de Souza (este visceralmente contra Miguel Pereira). Mas a tese, além de se mostrar vitoriosa, revelou-se também incontestável com o tempo.

Entretanto, críticas ou aprovação de seus trabalhos de modo algum interferiam em seu jeito pacífico de ser e viver. Alheio a discussões estéreis, ele deixou que o tempo provasse a veracidade de suas palavras e desse o devido valor a seus escritos, com isso firmando de vez seu nome nos meios científicos da capital como o de um homem consciente e tranquilo que nada mais buscava senão a melhoria da medicina e o aperfeiçoamento do ensino acadêmico. Miguel Pereira não tinha completado ainda um ano de formado, e de pronto a Academia de Medicina aprovava sua eleição como seu membro titular – isto em 23 de dezembro de 1897 –, após unânime aprovação dos veneráveis componentes da instituição. No dia 30 do mesmo mês, assumia a vaga com indisfarçável emoção, apresentando então a edição final da sua Memória Médica sobre Anemia Tropical e com isso encerrando de vez as polêmicas sobre tal assunto. Pouco tempo depois, foi indicado para o Sodalício da Academia, cargo que ocupou com rara competência entre os anos de 1909 e 1911.

Na verdade, ele se educava com afinco para ser professor, e seu espírito afetivo o impelia a passar aos seus semelhantes tudo o que aprendera na vida. Sua alma desprendida jamais poderia encerrar, em si mesma, os conhecimentos que adquirira, atitude que ele considerava ser um exercício de puro egoísmo. Para ele, viver era aprender e ensinar sempre, e por essas razões o jovem médico voltou-se de corpo e alma para o magistério.

Segundo relatos de muitos colegas e professores da época, o jovem médico tinha no sangue a fibra de um grande mestre. De fato, a respeito de suas aulas, seu antigo aluno, o professor A. de Almeida Prado, escreveu com grande conhecimento de causa:

“Miguel Pereira foi o professor, o expositor incomparável, cujo renome atulhava os auditórios, embevecidos com a precisão vocabular, com a segurança do seu exame clínico e com os sortilégios de sua sedução pessoal (…) As suas qualidades foram, sem dúvida, as de professor. À facilidade extrema de expressão aliava dotes de rigor científico absoluto e a sagacidade mental das verdadeiras vocações clinicas.”

Em brilhante sequência, no dia 4 de outubro de 1907 Miguel Pereira foi nomeado como Professor Substituto da 6ª Seção de Clínica Médica, ocasião que aproveitou para pronunciar na Academia um vibrante discurso em defesa da melhoria do ensino de Medicina no Brasil. No ano seguinte, recebeu a indicação para ocupar a Cadeira de Patologia Médica. Seus feitos profissionais sucediam-se celeremente, e já em 1909 a Congregação da Faculdade indicava-o para reger a 1ª Cadeira de Clínica Médica, cátedra em que permaneceu até o dia de sua morte.

Em outubro de 1916, ao saudar o professor Aloísio de Castro em solenidade na Academia, Miguel Pereira proferiu o mais célebre e veemente discurso de sua vida. Afinal, o que vira e enfrentara em suas andanças pelo interior, junto aos pobres das regiões ribeirinhas, servira de mote final para sua indignação e até mesmo jogara em sua alma dúvidas sobre a validade do trabalho médico no Brasil. Depois de apresentar um quadro caótico e intolerável relativo à saúde do povo brasileiro, que sobrevivia a duras penas no meio rural, lançou ele a frase que notabilizou de vez seu nome no país:

– O Brasil é, ainda, um imenso hospital!

A comoção causada por esta frase contundente atingiu todos os meios sociais e administrativos do país, até porque fora lançada por um homem de imensurável envergadura moral e ilibado senso profissional e ético, cuja posição nos meios acadêmicos era inatacável e exemplar. O trauma inicial causado por aquela declaração terrível – que apenas confirmava a dura verdade que poucos tinham coragem de revelar ou de falar em público – cedeu lugar a uma reação demagógica por parte de muitos parlamentares e até mesmo por alguns setores mais reacionários da imprensa, porém Miguel Pereira enfrentou outra vez a tempestade que desencadeara com a altivez, a coragem e a indiferença magistrais que já demonstrara em ocasiões semelhantes, convicto da retidão e da certeza de suas palavras assustadoras, posto que irretorquíveis. A verdadeira guerra deflagrada pelas candentes palavras daquele médico destemido e respeitado recebeu o incondicional apoio de toda a Academia Nacional de Medicina. Esta, em comissão, dirigiu-se de pronto à sede do Governo Federal para exigir com veemência as medidas necessárias à melhoria de condições de saúde do sofrido povo do interior. Surgiram então, graças a tal movimento, as raízes da profilaxia rural, tão ardorosamente defendida e aguardada pelos médicos de todo o país. No dia 1 de maio de 1918, tal ramo de trabalho foi regulamentado por uma Lei sancionada pelo presidente Wenceslau Braz. Em relação a tais acontecimentos, o deputado pernambucano e médico higienista Dr. Gouveia de Barros dizia no Parlamento, em sessão de 8 de dezembro de 1922 (quatro anos, portanto, após a morte de Miguel Pereira) que

“(…) Foi preciso o grito angustioso de Miguel Pereira que, como clínico, sentia a todo instante e como professor mostrava aos seus discípulos, continuadamente, no leito dos hospitais, a verdadeira situação de abandono em que se encontravam nossos patrícios da zona rural.”

Depois daquela consagração junto ao Governo, Miguel Pereira, ao voltar um dia para casa após trabalho na Academia, simplesmente abraçou sua querida Maria Clara e confidenciou-lhe:

– Foi o meu canto de cisne.

Com efeito, não se tratava de uma premonição, mas sim de uma declaração médica: a partir dali, Miguel Pereira entrou num processo patológico irreversível que em pouco tempo o levou à morte. Tinha ele apenas 44 anos de idade quando a insidiosa doença o atacou. O destino irônico e implacável, que lhe dera mente privilegiada para aprender e intuição perfeita para curar, fazia dele uma de suas vítimas mais ilustres. Estava no apogeu de sua intelectualidade, seus discursos eram concorridos e elogiados e até se cogitava seu nome para a Academia Brasileira de Letras. Ciente de seu mal, não se deixou abater e propôs-se a trabalhar até o fim.

Uma providencial coincidência, entretanto, fez Miguel Pereira descobrir a Vila da Estiva. Tratando de uma moléstia respiratória que de súbito acometera o Almirante Alexandrino de Alencar – o grande restaurador da Marinha de Guerra do Brasil – Miguel Pereira aconselhou-o a procurar uma estância de altitude, onde certamente o ar mais tépido contribuiria para o seu bem-estar. O Almirante veio então para a fazenda de Jorge João Dodsworth, o barão de Javary, que já alardeava no Rio de Janeiro as notáveis virtudes do clima da Serra do Couto. Após uma boa temporada de repouso às margens do lago, o militar retornou ao Rio de Janeiro e apresentou-se a Miguel Pereira para uma nova avaliação médica. Visivelmente impressionado pela cura de seu paciente, o médico sentiu crescer em sua alma o ímpeto que sempre o levava a procurar a roça nos momentos mais difíceis de sua existência. Ali, sonhava ele, residia a provável solução de seus dois problemas mais imediatos: o retorno às suas origens e o lenitivo para os seus males.

É bem possível que outras coincidências não tenham passado despercebidas àquele homem tão perspicaz: a Vila da Estiva chamara-se anteriormente Barreiros, praticamente o mesmo topônimo de sua cidade natal (São José do Barreiro) e na Faculdade de Medicina havia um colega seu – Dr. Henrique de Toledo Dodsworth, filho do barão de Javary –, em cuja fazenda o Almirante Alexandrino de Alencar repousara e encontrara a cura para o seu mal.

Curioso, otimista, esperançoso e certamente encorajado pelo colega acadêmico, Miguel Pereira viajou então pela primeira vez até o logradouro de Belém (hoje Japeri), ali embarcando num comboio puxado por uma prosaica Maria Fumaça, logo subindo as colinas em busca da Estiva. Começava então um novo caso de amor em sua vida. Comovido pelo clima sonolento das montanhas altivas, tocado pelas delícias da serra verdejante e aninhado naquela tranquilidade provinciana e simplória que tanto lembrava sua fazenda de infância, o médico famoso sentiu-se de novo uma criança, e sem hesitação fixou-se em definitivo naquela área intocada, ali adquirindo a propriedade rural que acabou por se confundir posteriormente com o seu próprio nome: a Vila Maria Clara, de onde passou a proclamar para o país os atributos ímpares de seu clima “(…) como sendo provavelmente o 3° melhor do Mundo!”

Corria o ano de 1915 e ninguém podia supor que ele desfrutaria por pouco tempo as delícias oferecidas pela terra que elegera como sua última morada. Contudo, sabia ele aproveitar ao máximo cada minuto de vida em seu sítio amado.

No ano de 1918, quando Miguel Ozório de Almeida viera conviver com seu mestre no Sítio Maria Clara, declarar-se-ia de forma inexorável a doença que o mataria. Contudo, nada no semblante daquele homem tranquilo, trabalhador, sorridente e alegre deixava perceber as agruras do mal que o consumia lentamente. Em finais de maio de 1918, contudo, agravaram-se os sintomas de sua moléstia incurável. Esta não chegou a ser formalmente diagnosticada, mas de acordo com o professor Almeida Prado, Miguel Pereira apresentava uma compressão típica de mediastino provocada, ao que tudo indicava, por um extenso e letal tumor de acústico, muito embora até o fim tenham permanecido dúvidas a respeito de tal definição médica. Constatando a injúria daquela devastadora doença, Miguel Pereira subiu em definitivo para o seu adorado sítio na Estiva, vindo conviver no conforto doméstico proporcionado pela esposa Maria Clara e pelos filhos Helena, Vera Lúcia, Lúcia

Vera, Maria Clara (Mancala), Miguel Filho e Virgílio Mauro, este o filho caçula destinado a ser médico como o pai.

Dissimulando sua dor, resignado e estoico, Miguel Pereira ainda fazia questão de recepcionar no sítio seus amigos e discípulos da Faculdade, além de vários companheiros de profissão, salientando-se entre eles os estimados colegas Almeida Prado e Aloísio de Castro. Este, a propósito, transcreveu de forma dramática o lance derradeiro de Miguel Pereira em discurso proferido na Congregação da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em sessão de 31 de dezembro de 1918:

“Quem o viu nas crises da cruel doença, desmedrado, o peito opresso, arfando descompassadamente e arqueando nas ânsias de respirar trabalhoso sem uma imprecação ou lamento, lhe estava a ler no rosto de justo as palavras do salmista: Pronto está meu coração, Senhor! (…)”

No dia 23 de dezembro de 1918 – uma segunda-feira que antecipava para a família um Natal enlutado – perto da hora final e numa inequívoca prova de seu amor pela Estiva –, Miguel Pereira afastou seu sofrimento por alguns minutos para formular um único e singelo pedido: que sobre seu túmulo fosse espalhado um pouco da terra recolhida no jardim do seu adorado sítio serrano.
Dessa infausta data em diante, moradores e visitantes da vila passaram a se referir à localidade como “a Estiva do Dr. Miguel Pereira”, e ao longo dos anos vinte do século passado a titulação foi simplesmente abreviada para Miguel Pereira, topônimo logo homologado pela Prefeitura e Vassouras, então cabeça de município.

Sítio Maria Clara, onde residiu o Dr. Miguel Pereira.

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One Comment

  1. Parabens pela matéria histórica, muito importante tomarmos Ciência do por que das coisas.

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