Um Barão negro no Brasil escravagista

Nem todos os fidalgos e aristocratas do Império Brasileiro no século XIX possuíam um título nobiliárquico. A maioria desses títulos eram comprados. O de Barão que era mais comum – primeiro na linha hierárquica – custava em média 750$000 (setecentos e cinquenta mil réis), algo em torno de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais). Já o de Duque custava um pouco mais e podia chegar a 2:450$000 (dois contos e quatrocentos e cinquenta mil réis) o equivalente a mais de trezentos mil reais.

Uma figura do século XIX pouco conhecida na história do Vale do Café, Francisco Paulo de Almeida, o Barão de Guaraciaba, chama a atenção por diversos aspectos e sob muitos olhares e perspectivas. Mas chama atenção principalmente porque era Barão e era negro em uma sociedade escravocrata, patriarcal e muito conservadora, onde eram poucos os caminhos que levavam um homem comum a ser bem sucedido profissional e financeiramente.

Desafiando a lógica, o Barão de Guaraciaba foi além de tudo um grande empreendedor. Trabalhou desde muito jovem, tendo participado de negócios em diversos ramos de atividade – deixou quando morreu um patrimônio grandioso aos filhos.

Quem foi Francisco Paulo de Almeida, O Barão de Guaraciaba?

Imagem do Barão de Guaraciaba exposta no museu da Santa Casa de Misericórdia de Valença. (Foto: Igor Alecsander).

Com a colaboração de Carlos Alberto Dias Ferreira (*)

Francisco Paulo de Almeida nasceu no arraial de Lagoa Dourada, Comarca do Rio das Mortes, em São João Del Rei/MG a 10 de janeiro de 1826. Era filho de um português chamado Antonio José de Almeida com uma negra escrava de nome Palolina.

Casou-se com Dona Brasília Eugenia da Silva Almeida, mulher branca, com quem teve 17 (dezessete) filhos. Na escalada social, Francisco Paulo de Almeida conseguiu conquistar e ascender diversas posições nos meios sociais agrícolas, financeiros e comerciais em: Mar de Espanha e Juiz de Fora em Minas Gerais; Valença, Conservatória, Paraíba do Sul, Três Rios, Vassouras, Petrópolis e na Corte (Rio de Janeiro).

Em Valença prestou relevantes serviços à Santa Casa de Misericórdia, como benemérito, tendo sido seu Provedor no biênio 1882-1884. Durante os últimos anos/dias de sua vida viajava frequentemente à Europa, permanecendo por longo tempo em Paris, além disso, teve contatos e aproximações com a princesa Isabel e o Conde D’Eu.

O Barão faleceu em 9 de fevereiro de 1901, aos 75 anos, no Catete, Rio de Janeiro.

Um grande empreendedor

Francisco Paulo de Almeida foi um homem de sucesso nos negócios. Atuava em empreendimentos diversos e ao longo da vida multiplicou exponencialmente seu patrimônio. Nem mesmo a crise do café conseguiu conter sua expansão. Tinha investimentos diversificados, aplicava em ações, fundou bancos, casas de importação, entre outros ramos.

Iniciou sua vida profissional na terra natal como ourives, especializado na confecção de botões de colarinho e como exímio violinista, suplementava seus ganhos tocando em enterros, ganhando dois vinténs e um cotoco (sobra) de vela de sebo.

Dedicou-se ao negócio de tropas (tropeiro), viajando de Minas pela estrada geral que passava por Valença. Em 1860, comprou sua primeira fazenda no Arraial de São Sebastião do Rio Bonito, então 3º distrito da freguesia de Nossa Senhora da Glória de Valença, e mais tarde as fazendas Santo Antônio do Rio Bonito e Conservatória, Veneza (todas em Valença), Santa Fé em Mar de Espanha/MG, Três Barras (Três Rios), Boa Vista n(Paraíba do Sul) Santa Clara  e Piracema (Rio Preto/MG). Na República, adquiriu ainda a fazenda Pocinho (entre Vassouras e Barra do Piraí) da família Faro em 1897. Na Corte, possuía uma confortável casa na Tijuca, e em Petrópolis, onde costumava veranear, um belo palacete (Palácio Amarelo) no centro da cidade, cujo prédio serve atualmente de sede do Legislativo Municipal.

Participou da construção da Estrada de Ferro de Santa Isabel do Rio Preto, cujos trilhos atravessavam as terras de sua propriedade (fazenda Veneza). Participou, como sócio fundador, do Banco Territorial e Mercantil de Minas Gerais (1887) e do Banco de Crédito Real de Minas Gerais (1889), bem como da primeira Usina Hidroelétrica do Brasil em Juiz de Fora, alavancando seu empreendedorismo na iluminação de Conservatória (RJ) e Juiz de Fora (MG).

Conforme atesta o professor Antonio Lopes Sá, o grupo de fundadores do Banco Territorial e Mercantil de Minas Gerais e do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, entre eles o Barão de Guaraciaba, foi responsável pela criação da Companhia Mineira de Eletricidade, primeira Usina Hidrelétrica da América do Sul (1889); participaram também da Academia de Comércio (1891); da fundação da Companhia de Juta (1894), da Cooperativa Construtora de Minas Gerais, da Sociedade Promotora da Emigração em Minas Gerais e do “Diário de Minas” (1888) e da Companhia Agrícola Industrial Mineira (1890).

Descendentes

A Revista Vale do Café conversou com Mônica Destro, descendente direta do Barão de Guaraciaba. Mônica é bisneta de Christina de Almeida, filha de Francisco Paulo de Almeida. Segundo ela, que pesquisa há anos a genealogia da família, há ainda alguma divergência no estudo dos descendentes do Guaraciaba. Ela pretende publicar seu trabalho até o final desse ano. “estou pretendo publicar a genealogia até o final do ano, mas ainda não consegui patrocínio, provavelmente terei que fazer de forma independente”, conta Mônica.

O Barão de Guaraciaba, procurou dar aos filhos a melhor das educações, inclusive, encaminhando alguns à Paris para estudar. As filhas fez estudar piano, segundo instrumento de sua devoção.

Deixou descendentes “notáveis” no Vale do Café. Entre eles o Dr. Luiz de Almeida Pinto, cirurgião em Valença [Hospital da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Valença], e Dr. Hélio de Almeida Pinto, cirurgião em Vassouras e  diretor do Hospital Eufrásia Teixeira Leite da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras.

(*) Carlos Alberto Dias Ferreira, é historiador e autor do livro “Barão de Guaraciaba – Francisco Paulo de Almeida : Um Negro No Brasil Império – Escravagista”

Outras fontes:  Entrevista com descendentes.

About the Author

José Luiz Júnior
Jornalista, bacharel em turismo, produtor cultural e livreiro. É fundador e editor da Revista Vale do Café.

2 Comments on "Um Barão negro no Brasil escravagista"

  1. Julia Haicki | 25/07/2017 at 4:28 pm | Responder

    Olá! O Barão tinha escravos?

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